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Dos vinte e da pausa (ou a vida e o recomeço)

27 de abril de 2014

Tudo bem, eu sei. É só uma idade. Todos já fizeram ou farão vinte anos. Minha aparência não vai mudar do dia pra noite, e os direitos que tenho agora são os mesmos que ganhei há dois anos. Não é sobre o que diz a minha certidão de nascimento. Não é sobre o que diz a lei, nem sobre o que as outras pessoas fizeram quando chegaram aos vinte. É sobre o turbilhão crescente de coisas do meu peito. Sobre o que tem acontecido comigo há algum tempo, sobre as mudanças, sobre as feridas, os sonhos, os novos horizontes, o inalcançável, sobre as grades.

Acho que nem mesmo é sobre mim. Acho que é sobre a vida.

Os últimos anos vieram sobre mim como um rolo compressor. Não só na dor, mas na forma de alterar minha forma – mudança. Não que só tenha sido dor, mas todas as coisas me esticaram, me puxaram de todos os lados e é apenas que isso dói. E quando a vida dá uma pausa (não, ela não dá, não deu, mas às vezes precisamos forçar um espaço dentro da nossa mente pra apenas pensar), só conseguimos concluir que: ai, caramba. Eu cresci.

E crescer dói, né? Essa frase óbvia foi disparada contra o meu peito cheia de pólvora, pela última vez, no consultório da minha psicóloga. E crescer também tem dessas. As coisas mais óbvias da vida são cheias de verdades que ardem o coração nos puxando com força e sem nenhuma delicadeza da bolha em que vivemos, da nossa zona de conforto para o que parece ser o que eles dizem, a vida real. O mundo adulto. E, sim, dói. Crescer e encarar as coisas de gente grande, tudo isso. Talvez não doa de fato, mas assusta, impressiona e desconcerta, isso sim.

Mas isso também, todo esse desconforto e a realidade diante dos meus olhos, as coisas tão próximas da minha pele, a vida tão intensa, repito: não é sobre mim, é sobre a vida.

E o que tem me encantado é a vida. Viver. Com seus percalços, suas realidades demasiadamente vivas e humanas. É isso o que me agrada, a intensidade da realidade, ainda que difícil, da vida e aprender diariamente a conviver com tudo o que muda e que tira as coisas do lugar.  Descobri que o segredo da coisa toda é procurar o lado bom de tudo, o que acrescenta e entender que nem toda perda é perda (e como as perdas têm me aberto os olhos pra o que há de melhor, depois!). É ser paciente; o bom da vida é maior e realmente melhor do que o que aperta. O segredo é ter sabedoria para reter os passos em falso, para que não haja feridas mortais na caminhada que pode ser tão boa, mesmo com os tropeços.

Tenho me encantado com a sabedoria buscada por tantos outros e, se encontradas, talvez – isso também me encanta. Gosto do incerto, do improviso, do imprevisto. Do novo, das surpresas boas numa noite de domingo ou segunda – quando menos podia esperar (e tem muito mais que isso).

Tenho me encantado e desejado me aproximar ainda mais daquele Amor. Aquele que continua me oferecendo perdão e cuidando de tudo, ainda que eu tenha andado descuidada deixando cair umas partes e fazendo uma bagunça bem grande, que continua cuidando de mim e dos meus planos, do meu futuro, deixando os meus laços ainda mais bonitos e permitindo que o sorriso permaneça no meu rosto por mais tempo que as lágrimas; o grito preso de alegria por bem mais tempo que o nó. O Amor que ainda me chama de filha e me diz que não se esqueceu. E que sabe que mesmo que eu tenha enlouquecido, não o esqueci. Continua aqui, aquecendo meu coração maltrapilho, assim mesmo.

Exatamente agora falta só um pouquinho menos de vinte e quatro horas pra eu completar vinte anos. Não significa nada, mesmo – essa semana ouvi de forma dura e, também, cheia de pólvora um grande “e daí? Você só está fazendo vinte anos” –, mas a coisa toda é que eu acredito em aniversários como acredito no nascer do sol e na virada de ano e comecei a acreditar nas segundas-feiras e em cada novo segundo: é recomeço.

Vou ter uma idade que deixa bem claro pra todo mundo que já sou adulta. Agora não há mais desculpas – sou dona do meu nariz, das minhas decisões e suas consequências. Sou responsável pelo dinheiro que falta, pela dor de cabeça, pela manhã sonolenta. Só quero saber o que fazer com tudo isso. Tenho pensado que sou capaz.

Não sei bem o que vai acontecer daqui pra frente. Acho que as coisas que estão acontecendo na minha realidade (porque, assim, tem uma realidade atual em volta da gente que está em uma determinada configuração há um período de tempo; já virou rotina. E as coisas continuam acontecendo nessa realidade, sendo a rotina atual da existência da gente – acabei de inventar) vão continuar do jeito que estão até que mudem. Mas já que se trata de um recomeço e, se é que esse recomeço é meu, que mude minha maneira de encarar as coisas; que eu saiba enfrentar, cada vez mais desejosa de viver essa vida, como ela é, compreendendo as dores e essas rotinas que se alteram a cada novo encontro.

A vida começou de verdade pra mim, de várias formas, esse ano. Se eu ainda não acordei pra essa realidade, que eu acorde hoje, que eu acorde amanhã cedo. Que eu continue acordando e respirando bem fundo toda a vida que me está disposta a cada nova manhã. E, se eu a amo tanto, por que não querer que ela continue depois que minha voz se silenciar pra sempre? Por que não me lembrar de que essa promessa é pra mim?

Se é sobre recomeços, que a vida recomece dentro de mim a cada instante.

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One Comment leave one →
  1. 27 de abril de 2014 10:25

    Lindíssimo texto… A maravilha da vida, as dúvidas, o questionamento, o tempo que passou e o que ainda temos… Ah, tudo isso é lindo aos 20… Mas apenas aos 40 você conseguirá ver a beleza de tudo isso. Então suspirará de saudades…

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